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Apanhou delicadamente o objeto. Pela primeira vez sentiu medo ao tocar um livro. Que perigo, afinal, habitava ali, para sentir tal estado em sua alma? A página que seus olhos percorreram prenunciava seu indizível destino de homem: "Rosas que na ausência de poesia, estouram, envelhecem e morrem como se nunca tivessem existido". Foi o suficiente. Engoliu cada página do livro, pedaço por pedaço, letra por letra. Frase, ideias e exibicionismos do poeta, agora matavam a sua fome. Saciado riu de sua ignorância. Que tipo de individuo ousaria comer um livro? "Nos tempos de lógicas e razões insanas, alguns homens ousados ainda devoram e provocam com a boca de beijo e de guerra um paladar indigesto de saber", deduziu. Longe do pensamento, e próximo do corpo. http://www.youtube.com/watch?v=CYP9Pte5Fh4
Escrito por Brunno Almeida. às 14h40
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“Na verdade, meu caro amigo, esforçar-se por separar tudo de tudo, não é apenas ofender à harmonia, mas ignorar totalmente as musas e a filosofia (...) É a maneira mais radical de aniquilar todo discurso, isolar cada coisa com todo o resto; pois é pela mútua combinação das formas que nasce o discurso”. – Sofista, Platão.
Escrito por Brunno Almeida. às 14h05
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Por que realizar uma obra de arte se vivê-la é tão mais urgente?
Escrito por Brunno Almeida. às 01h31
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parece que o mais urgente não é a busca pela verdade, mas em como transformar múltiplas verdades em infinitas poesias...
Escrito por Brunno Almeida. às 01h11
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Análise do quadro “Jardim das Delícias” de Bosch  O olhar que se lança para o quadro “Jardim das Delícias” de Bosch, a principio, é o do espanto. Logo este se desfaz na superfície inquisitiva de nosso tempo. O desejo de saber se estabelece, perguntando a si mesmo: de onde principia essa espécie de terror apocalíptico que não suportamos? Da aparente organização, ordem e pragmatismo de nossa época, a inquietação, que logo se transforma em desprezo pelas alegorias ali expostas. Em qual lugar secreto e misterioso emanam essas figuras simbólicas que parecem superadas? No primeiro momento somos arremessados, como em uma luta semiótica, para a orientação, a amplitude, a quantidade do painel central. Como em um caleidoscópio que não cessa de girar, nossos olhos tentam ressignificar os painéis do lado esquerdo e do lado direito. Para a inquietude, para o modo organizacional que não abandonamos de invocar, a primeira leitura precipitada obriga-nos a dizer que, o lado direito do quadro é o “estado caótico das coisas”, o abjeto, o desprezível, o lado inumano, o inferno. O esquerdo, por sua vez, trata-se desta busca longínqua, árdua e perpetua pela purificação do Ser, a sabedoria ou o paraíso perdido. Não somos nós que olhamos o quadro de Bosch, mas penso eu, são as imagens boschinianas que, apresentando figuras animalescas, estranhas, sagradas e profanas, que não se cansam de nos olhar: Três estados, três quadros, três épocas ou três estados de espíritos. Por uma necessidade hierárquica analisaremos da seguinte forma: direito (1), centro (2) e esquerdo (3). No primeiro, ainda, três fases se justapõem. Da parte inferior, passando pelo meio, até chegar ao topo, três situações distintas de luz e cor. O marrom-terra prevalece subjugando as figuras que se deleitam no chão. Sem o menor pudor, anarquizam o que é o humano com o que é animal. Não há uma naturalidade no dizer “natural”. Símbolos do que supostamente chamaríamos de religiosos, musicais e de erudição confundem a cena. Vinculo possível: tudo gira em torno de uma espécie de lobo, de corpo azul e vestes compridas, sentado no alto de um trono. Abaixo deste patamar, um globo do mundo está escondido, camuflado, beirando um precipício, onde homens provocam a morte. A imagem que permeará a análise geral do quadro já está dada: não é deus, não são as divisões territoriais que se desenham no corpo do globo, mas um homem que carrega este “mundo”. Ao subir, o marrom cede lugar ao cinza. Um rio ou um mar agitam os corpos, ora para o desejo de navegar, ora para o de construir. Partes da anatomia humana se revezam com colossais estruturas artificiais, como a faca que atravessa a orelha. A única luz dizível é do lado direito desta parte central. O olhar se desvia imediatamente para o alto da parte (1) do quadro. Talvez pelo excesso de luz natural das outras duas. O que se vê é uma cidade com suas fortalezas em um pleno estado de devastação. Diferente das outras que compõem este lado direito do quadro, luzes produzidas pelo homem saem das pequenas janelas e orifícios de um monumento que se ergue. O poder observa incansavelmente o ballet des-ordenado dos súditos. Quem os libertará? Na imagem central (2), como se até a história do quadro obedecesse a uma espécie de lei natural, o positivo, a ordem e a verdade se estabelecem. As cores traduzem o que é “natural”: verde, azul e um forte amarelo restabelecem o elo perdido na “Idade das Trevas”. A luz é inevitável. Trata-se da mudança, do princípio do que convencionamos como a Idade Clássica (Séc. XV, XVI, XVII). Os saberes se reorganizam constituindo assim, novas formas de ralações sociais. Insistentes as figuras sobre-humanas, ao contrário do lado direito, parecem estabelecer uma ordem de comunhão, ou domesticação? O que era antropofagia exótica, aos poucos cede lugar ao conhecimento do homem, ou ainda, uma ciência humana. Mas um olhar desavisado, não perceberia a sutileza no topo. De lá cinco estruturas (cinco ideias) emanam como um satélite suas forças. Trata-se de emoção, razão, percepção, inteligência e sabedoria? Trata-se de uma nova episteme? À esquerda (3) do quadro não interessaria se não fosse pela visão diáfana e sutil. Os animais “se esquecem” em seu habitat e não se reagrupam em torno das três figuras humanas. Um homem - ou uma mulher - ao centro com mais duas figuras nuas: a do lado esquerdo está sentada na grama. Observa atentamente as palavras daquele que parece indicar um “cuidado para si”. A outra ainda flutua entre a desrazão e a razão. Seu olhar longínquo denuncia uma desconfiança? De quem, ou melhor, do que desconfia esse homem tão seguro de si? A sábia ou o sábio fitam nossos olhos, convidando-nos para uma reflexão. É neste sentido, e só neste, que o quadro de Bosch não é um quadro para olhar, mas para ser olhado, perguntado, indagado. Como nas figuras egocêntricas de Velásquez em “As Meninas“, as personagens poupam o deleite físico, e transformam seus olhares em espelhos que não permitem simulacros. Com o corpo coberto, o olhar do “vestido” que transita também na desconfiança e no aparente repouso, pergunta então aliviado: Quem é você, ou melhor, conhece-se? A perdição faz esquecer que no topo da imagem do lado esquerdo (3) uma pequena arquitetura em espiral ainda provoca uma imanência no quadro: a filosofia como ordem da razão e da lógica, ou o iluminismo ou o desejo de verdade. Três estados, três sutilezas, três domínios para o saber, que em Bosch se confundem e que realizam o “parto” da figura moderna, que conhecemos como homem.
Escrito por Brunno Almeida. às 16h14
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Durante o percurso e ao término da leitura de “O Ensino de Filosofia: A leitura e o acontecimento” de Ricardo Nascimento Fabrini constatei - ainda que ligeiramente – algumas velhas inquietações e desconfianças acerca do próprio pensar e do exercício teórico e prático da filosofia. Poderia enumerá-las, se fosse o caso, mas contento-me em citá-las em uma aparente desordem. Penso que toda leitura carrega consigo, ainda que de forma ligeira, a história do Ser. Seria necessário refletir sobre o movimento contrário, e não apenas em que ponto este ou aquele texto corresponde às minhas inquietações, mas de quais formas e em quais momentos este texto é capaz de dizer a “verdade” sobre o pensar sobre o pensar, e por isto modificar o sujeito. Talvez neste limiar se encontre a filosofia contemporânea. Em “A leitura filosófica” ao expor certa metodologia quase arqueológica das palavras, dos desdobramentos, curvas e fugas dos signos focado na figura do autor – ou de quem enuncia a verdade – a repulsa foi imediata. Muito menos pela impaciência suscitada em mim. Muito menos ainda pela intranqüilidade em praticar o exercício da afirmação/ negação do que foi dito. Penso que o incomodo nasce em jogar uma luz positivista, contínua e progressista na história da filosofia. Para este caminho creio que temos os exemplos dos discursos científicos, e atualmente, dos tecnológicos. Seria o trabalho do filósofo/ arqueólogo das palavras escavar não só que foi dito, proferido, mas entender por quais caminhos foi possível dizer, ou melhor, por que tais coisas foram ditas em determinados períodos e outras não? É claro que para isso, cairei e uma análise simplesmente histórica e revisionista da filosofia. Mas não teria a própria filosofia chegado neste momento em que seria necessário anarquizá-la para organizá-la, e produzir consequentemente novas significações? Ou a reflexão contrária: A impressão é que o capitalismo e o neoliberalismo (ou chamem do que vocês quiserem) ditaram e ressaltaram a crença de que as invenções e as criações se restringem apenas aos séculos passados e aos nomes sacralizados que só encontramos nos livros de história? Até que ponto esta prática não é do nosso poder de criação? Talvez agora faça sentido, a reflexão que anotei no caderno na primeira aula: Enquanto a Filosofia ocupar-se do sujeito constituído e arquitetado durante um determinado período; enquanto ela se preocupar com a materialidade histórica e com a única materialidade possível no sujeito, o corpo; enquanto ela, depois de negativar a anterior para forjar uma nova episteme, entenderemos o seu sentido de inscrição na atualidade. Se for como ato de criação e de não-determinação, sim, a Filosofia pode não ser uma estética da existência, mas uma estética da resistência, com seus movimentos, tensões e forças. Lê-lo apenas como combate ao imperativo do tempo não seria uma nova forma de vigilância e de punição? Digo isto por um motivo muito especifico. Podemos falar de uma perda total desta relação paciente, singela e calma com o tempo? Parece-me que o mais importante é entender em quais instituições esta noção de tempo-máquina-produtiva se faz presente. Não se trata de negar uma existência opressiva, mas identificar em quais momentos o sujeito é dominado por essa lógica. O problema talvez não seja o tempo, mas as instituições que delimitam e limitam. Neste sentido, o texto é interessante quando recorre ao sentido de leitura anamnese (trazer de novo, memória). Memória que se configura no passado – isto o nosso século que se inicia não cessa de produzir – mas a memória em vincular o homem presente com o passado e com o futuro. De certa forma, este sentido de anamnese lembrou-me as ideias da filosofa judia Hannah Arendt. “(O) caráter revelador da ação como a faculdade de produzir narrativas e de se tornar histórica (...) formam os dois, a fonte de onde jorra o sentido, a inteligibilidade, que penetra e ilumina a existência humana”. A situação melhora – ou piora– com as ideias em “Espaço Público”, e em particular com as de Renato Janine Ribeiro. Aqui o jogo se inverte, o que era angústia torna-se não alivio imediato, mas um terror da indigestão. É aqui que reside a “verdadeira” provocação do texto. Sabemos muito bem, em quais momentos e por quais situações a nossa escola passou, seja como ponto de difusão de um saber autoritário, seja como reorganização de um saber libertário utópico. De qualquer maneira, a sociedade encontra-se no primeiro saber: o autoritário. Não mais a autoridade centrada, mas redistribuída em todos os corpos. Herança do capitalismo tardio e das transformações liberais pós-guerra: governar menos para governar mais. A ousadia consiste em não só resistir a instituição no seu termo genérico, mas as micro-instituições (nós) que sustentam a primeira. Parece que o conceito grego de “ágora”, enquanto espaço político, transposto para a sala de aula nunca se fez tão urgente. O desfio é lançá-lo para além das grades e dos muros. Na construção final, “Acontecimento, que se apóia em certo conservadorismo do começo para negá-lo, o desejo de experiência do lugar, do acontecimento e da obra levou-me para uma possível analogia com o teatro e o seu encantamento do “aqui e agora”, de algo que flui, escorre, é imperceptível e indizível. Em qual outro lugar a arte (no sentido de cuidado, de lapidação que o artista possui) pode encontrar ressonância, se não na filosofia? Encaro que talvez, a problemática de nossos tempos não seja somente o não pensar sobre o pensar, mas em como juntar, organizar, colar os possíveis diálogos com outras plataformas, principalmente com a arte como regente da vida. Utopia. Talvez fosse necessário perguntar-se se o filósofo dos nossos tempos não seria o sonhado “artista total”? Veja bem, artista no sentido de criação, mas principalmente de cuidado manual com a obra. Recorrendo a uma prática atualmente feita por Slavoj Zizek, o último trecho deixa transparecer esse desejo de cruzamentos de símbolos “(...) repertório de textos da história das ciências, das artes, ou da política, bem como uma habilidade em relacioná-los com os lugares de conversação”. Seria necessário construir uma história da totalidade, não apenas colocando-a em prateleiras imóveis (como fez a Enciclopédia de d’Alembert e Diderot), mas misturando-as, confundido-as para até certo ponto anarquizá-las. Talvez em um futuro próximo isto seja – ou já é – possível. Não lançaremos então, aquele olhar promiscuo, desconfiado contra nós mesmos. A história será por sua vez a responsável, em certa medida, em apontar os verdadeiros desvios, delírios, alucinações criados por ela mesma. O que era fracasso no reino da moral será então devir. Se pensarmos na Filosofia como essa inscrição não mais no campo do reproduzível, mas sim no devir; se ela incomodar, ferir e nausear um corpo – como fez comigo nesta leitura – posso afirmar que sim, em meio às geometrias estruturadas dos saberes, a Filosofia é um traço particular móvel, que vez ou outra desenha uma nova perspectiva.
Escrito por Brunno Almeida. às 13h52
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Cena final Take 01: a morte! (Pausa) No reino do imaginário habitam seres extraordinários. (Pausa) Alguns causam espanto pela distância entre si. Distância no nome, na linguagem, no espírito e no traje. Espanto de que neste reino complexo, nesta rede inimaginável cria-se então a figura de um novo homem... A nossa narrativa obriga o olhar da câmera para um destes reinos. Não se trata de uma tortura contra o humano, ou na hipótese do que restou: eloqüência da razão fracassada e a lógica pudica. (Pausa) Olhem e ouçam se já tiverem ultrapassado a incoerência do coerente. Olhem e ouçam se são espíritos livres. Olhem e ouçam se há um Idiota agitando-se em você. Olhem e ouçam não com a arma na cabeça, como nestas séries televisionadas que reproduzem o reproduzível. Não há data, tempo, espaço, local e estação. Os dias são únicos justamente por não se catalogarem em um espaço abstrato. Ali tudo é concreto, inclusive o deus. E ele se chama: Ratootar. Certamente, como se espera desta narrativa: a ação. Pois bem... Um dia as pessoas resolveram visitá-lo. Não em um palácio de ouro ou em monte, como no Olimpio de Zeus, mas no subterrâneo, no esgoto, no lixo, no corpo que cai em decomposição, desenhado no asfalto o estrato do abjeto. Quando os moradores adentraram o lugar, avistaram seu deus em estado de êxtase, roendo todas as possibilidades eternas que ali jaziam. Nada sobrava. Tudo era finito, posto, imediato, presente e atual. Tão possível como o deus conceder aos moradores o poder de roer. Roeram em estado brutal, efêmero e dionisíaco durante toda a madrugada. Quando o sol resolveu cegar os olhos da noite, perceberam que não existia mais nenhum morador presente. Todos se auto-roeram, em um delicioso zig zag antropofágico. A única coisa que havia sobrado no reino do deus Ratootar era a certeza de que aquela cena ficaria inscrita no espírito do tempo. No futuro, as pessoas tentariam em um movimento contrário ao de roer, recompor um deus que não se mexia. Brunno Almeida Maia, SP, 22 de Fevereiro de 2012.
Escrito por Brunno Almeida. às 23h40
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Prefiro a apoteose lingüística e impulsiva dos que não sabem, mas ousam sonhar um saber, do que os que sabem, mas se deixam levar pelo silêncio petrificante dos saberes.
Escrito por Brunno Almeida. às 20h07
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é tão solitário o trabalho do pensamento, da leitura, da reflexão. As palavras e as ideias que pareciam familiares, escapam, fogem, abandonam... Como se elas nunca tivessem existido, ou já presas ao corpo, tornam-se impossibilidades...
Escrito por Brunno Almeida. às 21h11
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"O sábio é um homem de ação, enquanto nós normalmente só sabemos esperar ou tremer" – Prajnanpad. Meu comentário sobre: é importante distinguir que para o “nascimento” de uma moralidade judaico-cristã, foi necessário passar por uma moralidade que já estava presente, latente, sufocada desde os helênicos. Por exemplo, uma das crenças positivas mais importantes no mundo cristão - que de certa forma perdura até hoje, não só no homo religiosus, mas no homo políticus - a esperança (elpís), aparece na Grécia Arcaica com um sentido de negatividade (espera de algo, temor irracional, mito de Pandora). Em Platão perceberemos um retorno positivo, como um estado latente e até certo ponto inerente à alma humana (No Filebo, por exemplo, ela é definida como uma paixão própria da alma). De certa forma, parece-me que a Antiguidade foi um grande equívoco. Seria necessário desobstruir e desconstruir, para reconstruir as confusões históricas entre os diferentes períodos de pensamentos no mundo grego, para daí então traçar o significado de sabedoria.
Escrito por Brunno Almeida. às 17h27
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Se há uma história descontinua do Ser esta é a do campo do simbólico - seja arte, moda, teatro, literatura, cinema - estas categorias divisíveis do Espírito no sentido hegeliano. Nela, a possibilidade de negação de um “progresso” e de um positivismo se faz o encanto. O artista não é mais aquele que projeta em seu muro imagens estáticas e de terror de um sonho errático, mas talvez, penso eu, uma espécie de provocador, de angustiador de impiedoso contra o historicismo linear. Seria necessário construir uma história da totalidade, não apenas colocando-a em prateleiras imóveis (como fez a Enciclopédia de d’Alembert e Diderot), mas misturando-as, confundido-as para até certo ponto anarquizá-las. Talvez em um futuro próximo isto seja – ou já é – possível. Não lançaremos então, aquele olhar promiscuo, desconfiado contra nós mesmos. A história será por sua vez a responsável, em certa medida, em apontar os verdadeiros desvios, delírios, alucinações criados por ela mesma. O que era fracasso no reino da moral será então devir. Brunno Almeida Maia, São Paulo, 18 de fevereiro de 2012.
Escrito por Brunno Almeida. às 16h25
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Enquanto a Filosofia ocupar-se do sujeito constituído e arquitetado durante um determinado período; enquanto ela se preocupar com a materialidade histórica e com a única materialidade possível no sujeito, o corpo; enquanto ela, depois de negativar a anterior para forjar uma nova episteme, entenderemos o seu sentido de inscrição na atualidade. Se for como ato de criação e de não-determinação, sim, a Filosofia pode não ser uma estética da existência, mas uma estética da resistência, com seus movimentos, tensões e forças. Brunno Almeida Maia, 15 de fevereiro de 2012.
Escrito por Brunno Almeida. às 01h32
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“O primeiro caráter da imagem moderna do pensamento é talvez o de renunciar completamente a esta relação, para considerar que a verdade é somente o que o pensamento cria, tendo-se em conta o plano de imanência que se dá por pressuposto, e todos os traços deste plano, negativos quanto positivos, tornados indiscerníveis: pensamento é criação, não vontade de verdade, como Nietzsche soube mostrar”. Gilles Deleuze e Félix Guattari – O que é a Filosofia?
Escrito por Brunno Almeida. às 22h47
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E de repente, você percebe que tem pessoas que te amam verdadeiramente, sem cobrar nada em troca. Nada - quero dizer - estas coisas que inventam por aí: usurpar, utilizar, vampirizar seu talento a todo custo. Gente que te ama, pelo que se é, pela ética que persegue, pela sensibilidade metafísica. Outras que você tem a certeza que são as oprimidas, na realidade são os nossos opressores. Há ainda, aqueles que hipnotizados pelo momento, pela covardia, pela falta de memória dos tempos sem memória, simbolizam ideologicamente o amor em palavras, mas depois desaparecem. Para estes o tempo cura. E há para aqueles, o amor que será mistério, por isso claro, nada obscuro, evidente. Em noites frias de luas cheias e claras, este mistério se revela, mantendo o encanto. Em dias quentes de sol na cabeça, a verdade se revela e protege. Alguns amam por amar, outros amam por que não conhecem outra forma, outra estética de resistência e de sobrevivência. http://www.youtube.com/watch?v=QlwrhY31RJc
Escrito por Brunno Almeida. às 21h07
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as opiniões criam consensos, a filosofia conceitos.
Escrito por Brunno Almeida. às 17h48
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Não adianta - e daí se entende o porquê, de tempos em tempos a cultura da troca tornar-se um ato de vergonha – se antes era a Igreja Católica que ideologizava o modus operandi, hoje é o neo pentecostal. Este último, principalmente no Brasil, país recente, novo, do futuro, encontra ressonância nas massas, por que ao contrário da religião da cruz, prega uma não-ascética, um quase hedonismo, uma abundância, a riqueza como promessa divina. E querem imagem melhor para um país em desenvolvimento, do que a benevolência de um deus que enriquece? No fundo, apesar de todas estas transições, a ferida nunca é cicatrizada. O discurso nunca vai de encontro ao sistema que nos rege, à ordem da economia política, do meio de governamentalidade, do controle e da arte de governar os indivíduos-empresas. Enquanto a “outra” é fundamentalista no discurso e na prática, a última faz da prática do fundamentalismo um discurso silenciado.
Escrito por Brunno Almeida. às 17h09
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Saudade só podia ser um sentimento genuinamente brasileiro. Genuíno e ingênuo, por isto território cognoscível da poética, incognoscível da tradução, da tristeza, da alegria e da saudade. Sentimos saudade de algo que aconteceu há poucos segundos. Sentimos saudades de algo que nunca vivemos, de um olhar, de um semblante, do cheiro nauseante de uma comida boa, de uma estação se aproximando, das flores febris que ardem nos asfaltos das cidades. E a saudade que temos do Mesmo? Isto deve explicar – não sei -a nossa mistura e o nosso samba, feito de saudade. Temos saudades até dos aparentes desconhecidos que coexistem – de certa maneira – em nossas peles, nossos genes, nossas danças e em nosso paladar. Sentimos saudades da saudade. Vivemos dela, da saudade que nunca saúda o presente. Saudade de passado, saudade do futuro sem rosto. Eu tenho saudade de lembrar, e desejo que as pessoas sintam saudade da lembrança, de que este substantivo abstrato é a exceção das mais excessivas, que também não permite nome próprio.
Escrito por Brunno Almeida. às 13h28
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para mim, no fundo, escrever sobre moda, teatro (para também), política, religião, esquerda, direita, economia, cultura, cotidiano em nada muda a ordem das importâncias. nelas coexistem o ponto que me interessa: a governamentalidade dos corpos. "Os sujeitos só existem na medida em que as instituições existem. Estas são as formadoras, detentoras e detentas dos sujeitos. O que há entre este caminho, este meio é o que convencionamos como identidade. A identidade não deve ser, a meu ver, entendida como um fim nas sociedades contemporâneas, mas como um meio. Um meio de prevenir, remediar, interditar, chocar e criar a ilusão de que, são estes sujeitos os detentores das autonomias e das verdades. Se há uma autonomia, esta é a da instituição, que deslocada, por isto próxima do corpo, encoraja novos corpos. O sujeito e a identidade são os alicerces não só para as estruturas, para a vida em sociedade, mas para prevenir os medos criados por eles mesmos, ou ainda, pelas instituições que também os encorajam". O que me parece pertinente é entender de que modo - e se é assim - que a filosofia responde ao homem. Penso que é justamente o contrário, é o homem quem deve responder à Filosofia. Ela não é um dado objetivo, reto, sem curvas. Pelo contrário, o mais importante, penso eu, no exercício do pensar não é a rima final do coexistir objetivo, que é colocada à prova, mas o duelo com o objeto em questão. Pensar em um progresso das ideias neste campo, atribuindo valor as negações é no mínimo justapor o indivíduo à hierarquia das instituições. Com todo o perdão, e posso estar equivocado, a filosofia não é uma ciência.
Escrito por Brunno Almeida. às 11h04
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A crise do abjeto: A 30ª Casa de Criadores abre suas apresentações com um vídeo institucional do SENAC. Na primeira fala, o estilista Alexandre Herchcovitch sentencia: “não temos uma cultura de moda, ainda, formada no país”. Até aí, nenhuma novidade no discurso. Mas me fez pensar, sobretudo, que cultura é essa?! Em relação aos outros países, em que a moda é entendida como aspecto da história, da expressão e da criatividade, em solo brasileiro há uma arrogância infantilizada em apenas generalizar esse dispositivo da cultura, como consumismo estúpido, coisa da burguesia, da elite. Não que estes pontos não aconteçam, mas pensá-los apenas por estes primas é fazer o caminho inverso, ou ainda, utilizar a mesma mecânica excludente, que já colocou as manifestações populares, como a dança, a capoeira, o samba e o carnaval em um sistema de crime e castigo. Penso que, o que falta para a moda brasileira – se assim, podemos chamá-la – é inserir a sua questão na ordem do discurso da cultura. Quantos pesquisadores, filósofos, sociólogos, antropólogos, historiadores e acadêmicos brasileiros, se disponibilizam a pensar, estudar, realizar uma arqueologia do vestir o corpo do outro, fugindo das exceções excessivas do clichê? Este é o ponto que difere a moda no continente europeu, da moda brasileira: a falta desta, como objeto de estudo. E é justamente neste ponto que reside o perigo: ao deixarmos de lado esses dispositivos, tratando-os apenas como “consumo desenfreado”, que a lógica perigosa do mercado exerce seu fascínio e entorpece. Justamente o que desejam é isto, que não se pense a moda como uma forma de governamentalidade – sem cair em uma dialética fundamentalista – de ato político e cultural. Talvez, a crise de mercado financeiro que a Europa enfrenta neste momento, tenha chegado aqui sob outra roupagem, a da crise da criatividade e o interesse em entender o que é abjeto.
Escrito por Brunno Almeida. às 12h00
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Steves Jobs, o território e a paz (in) desejada O começo de uma biovirtualidade Brunno Almeida Maia Esta reflexão nasce do espanto e da curiosidade acerca de um discurso. Mas não se trata de um discurso qualquer. Trata-se de uma fala, um imperativo, um enunciado, como quiserem, de um empresário norte-americano, ligado ao setor da tecnologia da informação. Certa vez, em uma entrevista, disse Steve Jobs: “Esqueça o passado. O que conta é ter a cabeça voltada para o futuro”. Por ironia, recorro a um passado, não o mesmo de Jobs, para iniciar a minha teoria. É sabido, que uma das maiores preocupações de nossa sociedade, a ocidental especificamente, é a da questão da paz. Desta preocupação nascem, após o término da II Grande Guerra, jurisdições, discursos, tratados e acordos específicos, com o objetivo de demonstrar o que seria a paz mundial. Mas é sabido também, e que muitos alegam que, este desejo, sonho coletivo e vontade não passam de uma utopia, de uma quimera, e que os nossos governantes nunca tiveram preocupados com a questão da paz “mundial”, mas sim, em multiplicar, em prol de uma indústria bélica todo um aparato tecnológico capaz de refazer a todo instante a permanência da guerra. Esta última, segundo o discurso corrente, a lucrativa, a imperativa e a dominante. Mas não foi bem isto, que a história, o silêncio da história, para quem sabe lê-lo, tem demonstrado. Como disse anteriormente, durante toda a década de 50, 60 e até hoje, se quiserem, instituições e organizações mundiais, em um esforço conjunto, tentam promover maneiras de acordar a paz. Mas afinal, de qual paz estamos falando? Ou melhor, seria esta a pergunta: esta paz idealizada é possível dentro de um acordo que seja mundial, logo unificado, plano, exato e em concordância com todos os países? Penso que sim e que não. Se estivermos pensando na paz como uma possibilidade única, material e solúvel, dada por estas organizações para todos os países, deduziremos, por um motivo muito simples, que a resposta, neste caso, é a negativa. Negativa, insisto, por um motivo aparentemente banal e óbvio: a questão territorial, ou se preferirem a constituição e a legislação própria de cada Estado. Voltaremos a este ponto, adiante. Se a questão da paz for pensada fora deste âmbito, o que não é impossível, pelo menos de pensá-la, mas realizá-la, sim, a paz mundial, ainda que de acordo com a especificidade jurídica e legislativa de cada país, é uma possibilidade, assim como a guerra é algo possível de ser desenhado. Temos aí, uma problemática que se estabelece. Primeiro a da questão do território de cada país ou nação, com sua legislação e jurisdição particulares, que impedem de certa forma, mas não impossibilitam a realização de uma paz “mundial”. Deve ser de certa forma, este o motivo dos acordos serem dados, principalmente, no plano mundial, na esfera global, ou se fosse Jobs falando, em um mundo sem fronteiras. Como vivemos em uma sociedade, em que se faz necessária a separação da ordem do discurso, onde ele é colocado, pautado, revisto e revisado, do próprio discurso puro, se faz necessário o entendimento do primeiro ato: o da ordem. Quem e de onde fala essa voz que se agita em nome da paz mundial? Primeiramente dos países membros que compõem estas organizações e entidades. Tais países, como sabemos, muitas vezes, historicamente, sofreram com as mazelas das duas grandes guerras. Tais países também, como sabemos, foram e são os primeiros, principalmente no pós-guerra, a se inscreverem na ordem vigente da atual política, ou melhor, da economia política, pensando nas palavras de Michel Foucault em “Nascimento da Biopolitica”. Se quiserem ainda, poderei ser mais claro e alusivo: tais países compõem o que eu chamaria de Bloco Unificado do liberalismo. E todos sabem que, para que este modelo de economia política seja possível, é (foi) necessária toda uma ordem em prol do mercado. Sua primeira inclinação e logo, reivindicação, para que este mercado fosse possível, foi a da sua própria liberdade – e é quase inverossímil pensar em paz, sem passar pelas nuances do que se supõe como liberdade – entre todos os países. Daí nasce talvez, a expressão, que mais tarde reconheceríamos pelos olhares que miram as tecnologias, de um mundo sem fronteiras. Suponho que, durante décadas se pensou na paz como uma unidade isolada, possível para todos e para todas as nações. Pois bem, o que fez o neoliberalismo? Mostrou que pelo menos no plano da ordem econômica esta paz não é uma virtualidade, mas sim, uma possibilidade na nervura do real. Isto explica, talvez, o porquê, todos os discursos pós Guerra Fria convergirem para uma questão de paz em uníssono. Não que não tivemos e não teremos guerras, mas é impensado nesta nova ordem que se estabelece, promover uma guerra mundial. As guerras que se sucederam e se sucedem são as guerras territoriais. Perigo duplo. Em um passado não tão longínquo, para contrariar a máxima de Jobs, a justificativa de uma guerra não era a paz, pelo menos para a nação ou território atacado, mas sim a da conquista, por meio das forças bélicas e armadas de um espaço econômico, social e territorial. Não que as atuais não sejam assim, mas elas se configuram, e esta é a grande diferença das guerras dos pós-guerras, pelo discurso da conquista do território em nome da paz, ou para ser mais específico, da colocação, após a ordem estabelecida depois da guerra, de uma nova legislação, uma nova forma de jurisdição e governo àquela população. Não precisamos ir muito longe, para entendermos os mecanismos das invasões norte-americanas em territórios árabes. Além do interesse petrolífero, mas só este dado não é possível de explicar, há uma série de práticas em jogo. Que práticas são estas? A de uma legislação, de um aparato jurídico e legalizador que seja, a priori, pautado na soberania da paz mundial, que por sua vez, é pautado na paz e na liberdade de mercado. Estes países, muitas vezes, antes destas invasões, estavam longes, já que viviam em regimes fechados de conhecerem a nova configuração, ou a modotopia* do século XXI: a tecnologia. Com a chegada do ideal de “paz” percebemos muitas vezes que as primeiras medidas são tomadas neste sentido: não basta a paz, basta a liberdade de ter a liberdade em se conectar com o mundo. É desta desconfiança de minha parte, ainda muito grosseira e sutil, que nasce então o que chamo de biovirtualidade. A biovirtualidade é um aparato discursivo, prático, real e virtual de possibilidade de integração totalitária no modelo e na ordem da economia política. É ela quem permite que a paz seja possível, já que a sua legislação é única e a sua fronteira inexistente. É a substituta, por excelência, das modotopias. A biovirtualidade não é uma modalidade de modotopia, mas a prática e o estágio final desta. Neste ponto, volto ao inicial e central de meu espanto: o discurso de Steve Jobs: “Esqueça o passado. O que conta é ter a cabeça voltada para o futuro”. Inocência acreditar que, este esquecer é apagar, para simplesmente construir um futuro de progresso. Pode ser, mas talvez, Jobs não tenha pensado nisto quando enunciou estas palavras. É também, o esquecer físico, pelo homem, pela memória humana, mas não o esquecer das tecnologias. Em quais décadas mais se revistou o passado, por meio das tecnologias? O tempo todo somos bombardeados por estas novas plataformas pelas lembranças do passado. Mas elas não estão em nosso cotidiano físico, mas no cotidiano não-fisico, logo, virtual destas novas realidades tecnológicas. Neste ponto, discordo da ideia de que esquecemos o passado. Talvez em um futuro muito próximo, na era da biovirtualidade, as modotopias estarão presentes, não mais como mecânicas de reprodução de nossos sonhos e desejos entre o Outro e o Mesmo, mas sim, como um livro de história sempre aberto, incansável, incessante, que não para de relembrar, para negar e para também afirmar, o que um dia foi dito, do lado de fora, como passado. Talvez hoje, ao debruçar-me com estas palavras, entendo a frase que disse meses atrás, em um momento de ingenuidade intelectual “As guerras do século XXI serão as guerras discursivas”. Enquanto morre este homem que conhecemos, pautado pelas estruturas (as estruturas vão morrer), assistiremos atônitos e satisfeitos o nascimento de um homem que se inscreverá na guerra do discurso, pela busca, pela briga e pela brutalidade de conquistar o território virtual do Outro. É a etapa avessa do estágio atual, ou da modotopia. Nascerá então, uma nova imposição geográfica, marcada pelo desejo de legislar e juridicizar em nome de um “bem comum”. *Modotopia – É o dispositivo onde todas as atividades que compõem a Ciência do Sonho: teatro, cinema, fotografia, música, dança, artes plásticas, TV, Rádio, Propaganda, se encontram. É o local de realização da identidade do Mesmo pelo Outro. Em minha análise, este período é possível com a colocação da moda no contemporâneo, no pós-prêt-à-porter, especificamente com a chegada de um aparato de espetáculo para a moda, ou historicamente e ironicamente, na década de 60 e 70, quando os ideais libertários se apropriam e fortalecem esta linguagem. É ainda, o meio de transição possível para estabelecer uma nova modalidade de relações, pautadas, atualmente nas tecnologias virtuais.
Escrito por Brunno Almeida. às 00h36
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