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Brunno Almeida Blog.


“AMOR É AUSÊNCIA DE ENGARRAFAMENTO” – ELIS REGINA, em transversal do tempo.



Escrito por Brunno Almeida. às 03h32
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“Carta para um herói”

 

Desde pequeno, quando as palavras e gestos são apenas signos soltos e suspensos, ele desejava ser herói. Imaginava-se voando por alturas, onde as vistas não alcançam e o ar suporta-se em sua essência. Suas amizades eram de seres de outras vidas, angelicais, dóceis, de sentinelas e galáxias. Possuía uma estranha e demoníaca facilidade de decifrar valores e olhares. Para ele, o mundo, esse mundo real, era apenas um gesto, suave e sem significado das mãos de Deus.

Sua mãe, no entanto, vaidosa com as descobertas do menino, alçava vôos, não tão longínquos como o do filho, rumo ao desejo. Orgulhosa, maternal, imaginava, ou melhor, sonhava, já que a sua imaginação era restrita a criação de novas formas de amar a sua cria. Sonhava com a promessa de seu filho, tornar-se “o homem da família”.

Um dia ele era advogado, no outro juiz de paz, em menos de duas semanas um grande médico, atento com vidas e gestos simbólicos de esperança. A mãe despertada para a idéia de grandeza do filho, encarava noites profundas no Hades da insônia.

Em uma dessas noites, quando todos parecem abandonar seus corpos, e os rostos, que na aurora são felizes e tristes, e agora expressam neutralidade, ela decidiu escrever uma carta para si mesma. Uma carta para uma mãe sonhadora, endereçada ao tempo, daqui vinte anos. Sim, ela saciaria o seu desejo de ser a leitora de sua própria carta, quando o filho completasse vinte e cinco luas.

Apanhou em uma escrivaninha, um caderno e um toco de lápis, miúdo e aparentemente mal apontado. Sem encenar o barulho típico das mulheres, iniciou o seu carinho solitário, derramando pequenas lágrimas de garoa sob o papel branco. Suspirou. Olhou o marido com o rosto neutro. “Por que em noites assim, todas as máscaras cumprem seu destino, e se desfazem?”. De súbito, teve uma idéia mortal, dessas capazes de levar ao inferno, onde almas que pesam e pensam em demasia, habitam: “Deus deve ser neutro”. Dormiu.

O garoto aprendera a ler e a escrever sozinho. Aos cinco anos já estava no colégio. Aos sete anos, já lia obras ilustres e poemas sobre o porvir. Aos oito, ganhava concursos literários e de retórica. Aos treze... Ah, os treze anos! Pegou uma meningite súbita, que quase o levou para a casa do Deus Neutro. Foram semanas em um leito quente. Foram dias de agonia e foram duas horas para que o garoto voltasse curado para a vida. Aos dezesseis, lançava seu primeiro livro de contos e crônicas. Aos dezessetes, já havia experimentado todas as aventuras sexuais e amorosas, com mulheres e homens.

A maioridade se aproximava. A ansiedade acompanhava as pulsações de sua mãe, que desfalecia ao sonhar com o futuro esmeralda do filho: advogado, medico, juiz, soldado. As taquicardias eram constantes.

Terminara o segundo grau sem muitas especulações sobre a vida cotidiana e as filosofias dos jovens atuais, que se encantam com palavras difíceis e idéias ordinariamente banais. Sua agitação interna, não era sobre a vida, mas sobre o terrível mistério que há nela.

Era uma tarde, não chovia, não fazia sol. Era uma tarde neutra, assim como o Deus do rosto de seu pai. Atravessou a rua em direção à Universidade, com a idéia fixa e solar de realizar o seu grande sonho de ser herói. Era o grande dia. O dia da viagem ao seu céu invisível e inalcançável. O dia da morada com o Deus neutro.

Repetiu os gestos corriqueiros e banais, que tanto lhe desagradava. Acendeu o cigarro, atravessou a rua, esperou o coletivo. Quase triunfante, como se nada bastasse, nem as verdades ditas, nem as mentiras maquiladas de falsos brilhantes, esperava ansiosamente pelo dia, em que o extraordinário acontecerá. Sentia que havia um vulcão em sinal de explosão em sua alma. Sentia que pessoas, cores, texturas e odores agitavam-se em seu corpo, sem pedir passagem. Não desejava ser mais ele. Desejava ser outro.

Logo pela manhã, quando voltava da padaria, de forma costumeira, a mãe recolheu as cartas na caixinha dos Correios. Não notara, em meio às contas a pagar, que o seu destino impiedoso estava lacrado em um envelope pardo, desses bem baratos de papelarias comuns.

Foi ele que deu a noticia ao abrir o envelope, depois da terceira xícara de café e o quinto cigarro do dia: Fora aprovado para o curso de Artes Cênicas mais concorrido do país. Ele evidentemente agitou-se em sua típica felicidade de dezoito anos. Como são boas as felicidades antes dos vintes.

Ela, após choros e insultos ao seu ex-médico, ex-advogado, ex-soldado, ex-filho, sentiu o forte cheiro de éter do hospital. A situação era gravíssima, detalhou o médico ao filho-herói.

A linha que separa a vida da morte é tênue, são poucos os que conseguem diferenciá-la, sem cair na enganação da esperança, seja ela de vida, ou de morte. Desde a infância, essa escuridão era sagrada para ela. Assim, como era claro para o filho, o seu desejo de voar para o céu inalcançável.

Entregara a carta de vinte anos contados no tempo para o filho, no intento de perdão ou quem sabe, aceitação de seus sonhos.

Morrera segurando as mãos macias de seu pequeno-herói; aquele herói que um dia, muito pequeno, assustou-se pela primeira vez com a palavra MORTE.

Ele com o olhar oco, profundo e de mistério, voltara caminhando para a casa. Seu corpo pedia o repouso, após intermináveis horas de convivência com o câncer da mãe.

No meio da rua abriu a carta. Emocionou-se ao constatar a infelicidade de sua mãe. Arrependeu-se amiúde por ter sido egoísta.

 

“Minha mãe sonhava em ter um filho médico, advogado, juiz, professor ou doutor... Escolhi morrer e viver diariamente. Escolhi ser artista, e viver constantemente entre o céu e o inferno. Ela, escolheu projetar os seus sonhos em um único filho. Não consegui chegar próximo do ideal de minha mãe. Mas e daí? Ela, chegou próximo do meu ideal de mãe? Eu apenas escolhi ser eu e ser outro. Tenho a arte que é capaz de mudar o mundo e as pessoas. Afinal, eu sou um herói”.

 

Tomou um susto. Sua consciência ditava implacavelmente as regras do jogo, impondo-lhe: “A arte não salva, não cura e não muda. Ela apenas destrói um mundo anêmico, e constrói um novo mundo com aspecto divino”.

Bebeu o último gole de leite que havia no copo. Deitou-se. Respirou suavemente, e dormiu. Voltou a sonhar com o seu céu inalcançável e a herança de um Deus neutro. Voltou a ser herói.

Então, ele descobrira que seria impossível ser aquilo que a sua mãe sonhara, ele era, na realidade, o próprio sonho.

 

 

Brunno Almeida.

 brunnoalmeidamaia@gmail.com  



Escrito por Brunno Almeida. às 03h31
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