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Por que realizar uma obra de arte se vivê-la é tão mais urgente?
Escrito por Brunno Almeida. às 01h31
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parece que o mais urgente não é a busca pela verdade, mas em como transformar múltiplas verdades em infinitas poesias...
Escrito por Brunno Almeida. às 01h11
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Análise do quadro “Jardim das Delícias” de Bosch  O olhar que se lança para o quadro “Jardim das Delícias” de Bosch, a principio, é o do espanto. Logo este se desfaz na superfície inquisitiva de nosso tempo. O desejo de saber se estabelece, perguntando a si mesmo: de onde principia essa espécie de terror apocalíptico que não suportamos? Da aparente organização, ordem e pragmatismo de nossa época, a inquietação, que logo se transforma em desprezo pelas alegorias ali expostas. Em qual lugar secreto e misterioso emanam essas figuras simbólicas que parecem superadas? No primeiro momento somos arremessados, como em uma luta semiótica, para a orientação, a amplitude, a quantidade do painel central. Como em um caleidoscópio que não cessa de girar, nossos olhos tentam ressignificar os painéis do lado esquerdo e do lado direito. Para a inquietude, para o modo organizacional que não abandonamos de invocar, a primeira leitura precipitada obriga-nos a dizer que, o lado direito do quadro é o “estado caótico das coisas”, o abjeto, o desprezível, o lado inumano, o inferno. O esquerdo, por sua vez, trata-se desta busca longínqua, árdua e perpetua pela purificação do Ser, a sabedoria ou o paraíso perdido. Não somos nós que olhamos o quadro de Bosch, mas penso eu, são as imagens boschinianas que, apresentando figuras animalescas, estranhas, sagradas e profanas, que não se cansam de nos olhar: Três estados, três quadros, três épocas ou três estados de espíritos. Por uma necessidade hierárquica analisaremos da seguinte forma: direito (1), centro (2) e esquerdo (3). No primeiro, ainda, três fases se justapõem. Da parte inferior, passando pelo meio, até chegar ao topo, três situações distintas de luz e cor. O marrom-terra prevalece subjugando as figuras que se deleitam no chão. Sem o menor pudor, anarquizam o que é o humano com o que é animal. Não há uma naturalidade no dizer “natural”. Símbolos do que supostamente chamaríamos de religiosos, musicais e de erudição confundem a cena. Vinculo possível: tudo gira em torno de uma espécie de lobo, de corpo azul e vestes compridas, sentado no alto de um trono. Abaixo deste patamar, um globo do mundo está escondido, camuflado, beirando um precipício, onde homens provocam a morte. A imagem que permeará a análise geral do quadro já está dada: não é deus, não são as divisões territoriais que se desenham no corpo do globo, mas um homem que carrega este “mundo”. Ao subir, o marrom cede lugar ao cinza. Um rio ou um mar agitam os corpos, ora para o desejo de navegar, ora para o de construir. Partes da anatomia humana se revezam com colossais estruturas artificiais, como a faca que atravessa a orelha. A única luz dizível é do lado direito desta parte central. O olhar se desvia imediatamente para o alto da parte (1) do quadro. Talvez pelo excesso de luz natural das outras duas. O que se vê é uma cidade com suas fortalezas em um pleno estado de devastação. Diferente das outras que compõem este lado direito do quadro, luzes produzidas pelo homem saem das pequenas janelas e orifícios de um monumento que se ergue. O poder observa incansavelmente o ballet des-ordenado dos súditos. Quem os libertará? Na imagem central (2), como se até a história do quadro obedecesse a uma espécie de lei natural, o positivo, a ordem e a verdade se estabelecem. As cores traduzem o que é “natural”: verde, azul e um forte amarelo restabelecem o elo perdido na “Idade das Trevas”. A luz é inevitável. Trata-se da mudança, do princípio do que convencionamos como a Idade Clássica (Séc. XV, XVI, XVII). Os saberes se reorganizam constituindo assim, novas formas de ralações sociais. Insistentes as figuras sobre-humanas, ao contrário do lado direito, parecem estabelecer uma ordem de comunhão, ou domesticação? O que era antropofagia exótica, aos poucos cede lugar ao conhecimento do homem, ou ainda, uma ciência humana. Mas um olhar desavisado, não perceberia a sutileza no topo. De lá cinco estruturas (cinco ideias) emanam como um satélite suas forças. Trata-se de emoção, razão, percepção, inteligência e sabedoria? Trata-se de uma nova episteme? À esquerda (3) do quadro não interessaria se não fosse pela visão diáfana e sutil. Os animais “se esquecem” em seu habitat e não se reagrupam em torno das três figuras humanas. Um homem - ou uma mulher - ao centro com mais duas figuras nuas: a do lado esquerdo está sentada na grama. Observa atentamente as palavras daquele que parece indicar um “cuidado para si”. A outra ainda flutua entre a desrazão e a razão. Seu olhar longínquo denuncia uma desconfiança? De quem, ou melhor, do que desconfia esse homem tão seguro de si? A sábia ou o sábio fitam nossos olhos, convidando-nos para uma reflexão. É neste sentido, e só neste, que o quadro de Bosch não é um quadro para olhar, mas para ser olhado, perguntado, indagado. Como nas figuras egocêntricas de Velásquez em “As Meninas“, as personagens poupam o deleite físico, e transformam seus olhares em espelhos que não permitem simulacros. Com o corpo coberto, o olhar do “vestido” que transita também na desconfiança e no aparente repouso, pergunta então aliviado: Quem é você, ou melhor, conhece-se? A perdição faz esquecer que no topo da imagem do lado esquerdo (3) uma pequena arquitetura em espiral ainda provoca uma imanência no quadro: a filosofia como ordem da razão e da lógica, ou o iluminismo ou o desejo de verdade. Três estados, três sutilezas, três domínios para o saber, que em Bosch se confundem e que realizam o “parto” da figura moderna, que conhecemos como homem.
Escrito por Brunno Almeida. às 16h14
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